
O LADO NEGRO DA LUA E OUTROS POEMAS
O LADO NEGRO DA LUA I
Não me chames de poeta
(não quero a túnica de Nesso)
as estrelas são menos solitárias
nas areias do Abaeté.
Minha companheira Lua:
- Porque te encobres de nuvens
se em algum instante
os meus olhos te vêem inteiramente nua?
Ainda ontem te escrevi alguns versos
E, como quem gosta de Caetanear,
Não cantei nada mais bacana...
Preferi “a indústria-cultural-na-realidade-tipicamente-urbana”.
O que adiantaria falar-te dos meus amores?
(Tudo, ademais, seria hipocrisia)
nem sempre a vida imita a arte
nem sempre a tua luz se reflete na poesia.
Do presente gosto mais...
Águas passadas são como chamas apagadas:
não movem moinhos
nem fazem carnavais.
Em Itapuã cada coqueiro tem uma sombra
cada sombra é fruto da tua nostalgia
e a aurora acima do mar
faz de ti, dia a dia, nova e eternamente fugidia.
Não roubes mais a luz do rei
o teu espelho é o mar
e entre tantos versos e prosas
o poeta pega carona no trio elétrico de Dodô e Osmar.
Hoje, na Bahia, o pôr do sol
no alto de Ondina
e nos olhos da menina
anuncia uma realidade insipidamente pitoresca e feminina.
À MINHA MÃE SEREI GRATO
A ti minha mãe, hoje e sempre
serei grato
infinitamente grato
aqui, agora, com toda ternura
e com amor
eternamente com amor
serei grato...
e mesmo na saúde ou na enfermidade
na pobreza e na riqueza
na alegria e na tristeza
na razão e na emoção
perante Deus e os homens
a ti serei grato...
e na vida ou na morte
na aurora ou no ocaso
no sucesso ou no fracasso
na mocidade e na velhice
a ti, por tudo e tanto
e por um pouco mais
e sem “entretantos”
a cada dia
serei grato...
E não haverá palavras no mundo
que possam te dizer
mais e mais
e ainda um tanto mais
com tal desvelo
diante do tudo e do nada
do sim e do não
que sempre serei grato
a Deus e a ti
por seres a minha mãe.
AURORA
O sol, como um ladrão,
chegou sorrateiramente...
e invadiu a casa,
os olhos e o coração.
A vida, como o calor,
veio abundantemente...
e fez brotar a rosa,
a prosa e o amor.
E a poesia, como uma melodia,
nasceu assim... de euforia:
e encheu a praça,
a alma e o dia.
OCASO
Quero mais um trago do teu cigarro
Quero mais um gole do teu veneno
Eu posso arder no calor do teu corpo
Mas quero morrer um tanto sereno
Não me deixes lançar mão da tua espada
Eu posso ferir-te nos meus intentos
Quero ficar sozinho nesta estrada
Mas quero morrer um pouco sedento.
Quero morrer de viver para ti
Quero viver de morrer para mim
Eu posso ressuscitar ao meio-dia
Mas ‘inda quero morrer mesmo assim.
Não me deixes roubar as tuas palavras
Eu posso matar-te em meus sentimentos
Não posso voar nos teus sonhos adentro
Mas quero morrer sempre sonolento.
Quero morrer de brincar de viver
Quero viver de brincar de morrer
Eu posso renascer ao pôr-do-sol
Mas quero morrer de tanto prazer.
Eu quero mais um trago do teu fôlego
E quero mais um gole do teu sangue
Eu posso sentir o gelo da tu’alma
Mas quero morrer assim... como Ghandi.
POESIA DE FUMAÇA
Escrevo uma poesia no céu
Mensagem de fumaça
Para que todas as crianças leiam
E a minha mãe veja através da vidraça.
A poesia fala de paz:
Uma rua estreita por onde trilham,
em guerra, inocentes infantes,
pequenos generais.
A poesia sobe em forma de fumaça
ofusca os gananciosos que,
de tão ricos, são pobres
e, cegos, semeiam a desgraça.
A fumaça sobe em forma de poesia.
Sei que muitos não podem lê-la,
Mas, um dia...
- Ah, quem sabe um dia?
MARAMAR
Sol e mar
Mar amar
De praia a praia
De mar a mar
Verão e férias
Mara amar
Sombra dos coqueiros
Sombra do luar
Vidas unidas
Em torno do mar
O ar que refresca
O mar para amar
O vento que sopra
As ondas do mar
As vidas que se unem
Só para amar
No mar...
O LADO NEGRO DA LUA II
Ah, Lua, Lua...
Que bailas no palco celeste:
- branca, nua e crua.
És estrela, Lua!
És atriz na minha rua
E brilhas infinita na minha vida
E brilho às vezes na tua.
Vê, minha amiga Lua:
Em Salvador o Poeta ainda
estende os seus braços
Os negros ainda são escravizados
Mas ninguém observa como navegas em mim
Mas ninguém vê como em mim tu flutuas.
Ah, Lua:
Por que tenho um coração ferido à espada
Quando melhor seria feri-lo à pua?
Mas aquieta-te minha amiga:
Um dia a alva será somente minha
E tu serás eternamente sua.
SERENATA DO VIOLEIRO
Vou viajando noite adentro
Violeiro de trovas métricas
Lançado rimas espessas
Que tu escutas da janela.
A chuva esconde uma lágrima
A rosa exala o perfume
Que do teu corpo se extrai
Deixando as marcas do ciúme.
Vou viajando sonho adentro
Poetizando o teu sorriso
Trovador de rimas métricas
Que se escuta da janela.
Nas letras te faço em arte
Na arte te transformo em música
Violando todo o silêncio
Que da praça ainda se escuta.
Vou viajando poesia adentro
Sonhador de rimas métricas
Ao som de trovas espessas
Que não escutas da janela.
CINZAS, CERVEJAS E AMOR
As cinzas definem
o que resulta do fogo...
ou do amor.
Copos de cerveja na mesa.
O bar – nosso recanto
onde nem sempre a embriaguês
é o ópio da alma.
Uma anciã na janela
espia o beijo
a mão travessa
o trago, o gole.
A poesia surge
de forma louca:
no olhar com que te miro
nos lábios com que te beijo
na língua com que te sinto
na minha voz rouca...
Eu só queria te contar
como a saudade
essa impiedosa saudade
estacionou em mim
em noite de lua cheia.
A LÍNGUA
Entre poesias, cantos e trovas
O amor me vem como prova
De Alencar, Machado e Rosa.
Ela é, quiçá, escandalosa
Meio abundante
Meio caótica
Absolutamente engenhosa.
Falo da Língua
De raças mil
Da crença, da graça
Como que ofuscado pela fumaça
Dessa imensidão de cores.
Sendo dinâmica
Ela é lusa, mas também Brasil.
EU, O POETA
Não nasci para a poesia
Mas naveguei os setes mares do saber
Andei pelos cinco continentes azuis
Amei várias donzelas
Não me casei com nenhuma
Pisei na terra quando estava na lua
Sonhei acordado
Fui louco, ébrio ou soldado
Débil numa terra varonil
Fui ferido pela espada
Segui aquela estrada
Que não leva a lugar nenhum.
Fui templo da solidão
Lutei pela vida e pela arte
Pelo vinho e pelo pão.
Travei diversas batalhas
Perdi a mais fácil
No circo fui marinheiro
No mar, palhaço.
Nas mil e umas noites fui boêmio
Fui servo, quando me queriam supremo.
E assim a minha doce rebelião
Se perdeu na juventude de um poeta efêmero.
O POETA E A CRUZ
O Poeta não amou a sua poesia
mas todas as mulheres do cavaco
e o som reticente dos copos vazios.
Foi fogo, onde deveria ser montanha
ébrio, quando deveria ser astronauta
abalou o mundo com gestos
não com palavras
fotografou o invisível
mas não alcançou o possível
tornou-se Saddam
quando lhe queriam Capitão América
casou-se com Joana
mas amou Maria
e morreu de ponta-cabeça numa cruz.
DIÁTESE
Sofro da influência literária pessoana
da manifestação poética parnasiana
da tropical musicalidade caetana
da sólida fragilidade urbana
da cultura tecnológica contemporânea
e da atonia pujante na melodia baiana.
A minha lírica reflexão
formula um concretismo abstrato
destilando a pura forma lusitana
e a escrita fantástico-realista saramaguiana
mesclada da simplicidade equilibrada
na arte neoclássica davidniana
e das insólitas analogias ego-profundas
da surrealista vasconceliana.
Tropeço diante das versificadas esquinas paulistanas
da metafórica dialética nerudiana
da internacionalização cultural
na sociedade sul-americana
e da feminina brasilidade coerente
na composição de Chico Buarque de Hollanda.
Sucumbo espiritualmente
ante a dicção da língua suburbana
da metamorfose pseudo-fundamentalista
na vil realidade cotidiana
e formulo versos que procedem,
segundo a ordem satírico-gregoriana,
das diatônicas seqüências ordenadas
no improviso giriesco da poesia marginal
e na retórica amorosa da palaciana.
CANTATA CECILIANA
Além deste jardim
Estão os restos mortais
Do nosso amor sem fim.
Aqui dentro de mim
Tem o aroma da rosa
E o branco do jasmim.
Veio o ventre da vitória
Brilhou uma luz na aurora
Cegou-me olho e memória.
Veio a vida vitoriosa
Brotou-me o verso e a prosa
Feriu-me o peito, a espora.
Veio o vento da vergonha
Subi escarpa e montanha
Trouxe a morte, a cegonha.
Além de ti e de mim
Outras vozes ecoam
Cantatas cecilianas.
Aqui neste jardim
Sinto o cheiro da rosa
E a morte da alva, enfim!
VILLA IMPERIAL
Na Rua Grande
próximo à Praça da República
junto à casa Henriqueta
na Villa da Victória
ao raiar da centúria
uma alma penada
teima em viver à sombra
do velho pinheiro, que já não existe
enquanto cavaleiros passam sem perceber
que ali jaz o espectro da nossa história.
3 comentários:
Sou um jovem bem diferente dos que tem por aí pois gosto de Ler e Escrever. Minha vida é dificil pois no meio social que vivo é constituida de pessoas com mais idade.
Uma dessas pessoas é Jorge Tannuri que foi Presidente de uma Sociedade de Escritores de Sonetos. Quando vi seus sonetos lembrei dele.
Quero dizer parabens por seu BLOG , saiba que ganhou um admirador cristão batista de Teresópolis que ama Poesia e Sonetos.
Marcos Vinicios Habib ( Khabbaz )
Cristão Fudamentalista / Calvinista
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