
GUERRA
Do meu celular
te envio um torpedo
e tu me respondes
com um sorriso gráfico
e um eletrônico “olá”...
MADRIGAL
No meu palmtop, querida,
tenho o mundo inteiro na palma da mão,
mas não tenho a minha própria vida.
Nos teus gigabits de beleza
a minha memória ram
sofre de esquecimento, Teresa...
POESIA-MECÂNICA
Saio de casa e pego o metrô
vou para o trabalho
chego ao trabalho
mecanicamente, finjo que trabalho
não, não sou eu, mas a máquina é quem trabalha
estou cercado de documentos virtuais
problemas virtuais
patrões virtuais
vou ao banco e sou atendido por uma máquina
telefono, e uma voz mecânica me diz: “ocupado”
olho ao redor e vejo máquinas
as pessoas andam mecanicamente
a vida passa mecanicamente
a poesia nasce mecanicamente
mecanicamente, me sinto culpado
pois não sei mais quem eu sou
acredito ser um personagem de videogame
onde o jogo nunca se acaba
o dia não se acaba
a vida se acaba...
celulares, notebooks, pendrives
controles remotos, sofisticação
e o coração que bate mecanicamente
e o coração que marca o passo
com saudade da vida bucólica
do meu interiorzinho baiano...
FOTOGRAFIA
Quando o zoom dos olhos meus
e o flash dos olhos teus
resolvem se encontrar
meu amor, juro por eu,
que a luz do flash teu
cegou, mas não doeu
embora fosse pra matar...
CARGA
Na cangalha do meu jumento
carrego dois panacuns
cheios de macaxeiras.
Na boca, um cigarro de palha
e algumas poucas besteira.
Na minha cintura, uma peixeira
e no bolso da jaqueta
uma máquina digital
com as fotos de Maria.
Na palma da mão
meu palmtop
que nem sei pra que serve direito
e o celular
que é pra eu falar com “Lia”
mesmo sabendo
que vida de matuto
não combina com tecnologia.
POESIA MARGINAL I
Nóis tava vortando do trabáio
andandu na rua sucegadamente
ai us ômi da joaninha chegarum
baterum in nóis
cuspirum na nossa cara
falarum uns palavrão
num deixarum nóis nem si ispricar.
Dipois, jogarum agente nu camburão
levarum nóis pru xadrez
deixarum agente de castigu
só sortarum nóis nu ôtro dia.
Inda tivemu qui ouvir du dotô
qui lugar de vadio é ditraiz das gradi...
Ora, sô: E nóis é qui é vagabundo!
.
O
poema
escurece-se
quando desce o
crepúsculo da falta de arte
na intimidade criadora do poeta.
A alma pura da poesia de rua
gera a casta luz de um
jovem dia em que
foge de mim
a sombra
tua.
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