TACITURNIDADE
Não me falem do choro
do coro e do canto...
onde não há amor
não há encanto.
Não me digam dos beijos não dados
dos dardos lançados sem alvo
do favo de mel
da rima na poesia de cordel.
Não me contem as odes dos trovadores
os sons e os dons dos amadores
a arte nos traços dos pintores
e as paixões do boêmios (en)cantadores.
A vida é um dom
um Tom na pintura a óleo
um hino à esperança
uma criança em acalento...
das dores sentidas
das feridas não cicatrizadas
e palavras não proferidas...
Só creio no Amor
na flor que revela a vida
na alma dos justos
e na saudade da hora em que partira...
ANACRÔNICO
Todo sentimento
Depurado pelo tempo
Essa minha dor
Feito camaleão – furta-cor
Como o pôr-do-sol
- Amor de fermento.
Todo sentimento
Tragando essa fumaça
Mistura de cimento
Escrita na vidraça
Do meu apartamento
- Palácio de traça.
Todo esse sentimento
Que trago como vício
Todo esse vício
Que trago como sentimento
É uma escada
Firmada no firmamento...
Todo esse sentimento
Vermelho feito escarlata
É feito de couro
É feito lata
Enfarta o coração
Tesouro de prata...
AMOR FERNANDA
(Para Fernanda P. Martins)
A ti, meu amor, serei dedicado
como o pároco que rege a missa
como a preguiça no seu sono
ou como o leão que devora a sua presa...
E mesmo que a vida venha a ceifar o brilho deste amor
ser-te-ei dedicado
como o esposo com a sua amada
como a espada amparada pela bainha
ou como o súdito para com a sua rainha.
Assim, naturalmente sem exageros,
embora exageradamente natural,
com toda essa atenção dedicada a ti
enfrentarei um exército inteiro
serei o teu melhor arqueiro
e, dos pretendentes, o teu melhor companheiro.
como ferro em brasa nas mãos do ferreiro
será sempre um amor fértil
como um ferrão
amor feroz
amor Fernão
amor, Fernanda!
E, assim, meu amor
dedicar-te-ei todo o meu zelo
quando olhares para o alto
com o cuidado de uma amazona
e vislumbrares a imensidão do meu carinho
que, em breve instante,
dispensar-te-ei por toda eternidade.
AMAR É...
Amar é dom, é dar
é se dar inteiro
é curtir um som
é sol de janeiro
é um ato
é um fato
é bote de gato
é um muro alto
é um salto
maior que o mundo
é um poço fundo...
É um mar, é um lago
é um preço pago
é tudo ou nada, é algo
capaz de ofuscar todo sentimento...
O amor é feito de cimento
é concreto
é abstrato
é duro, inabalável:
é de nuvem, é o firmamento.
É espécie de moeda
válida no mundo inteiro
é 18 de Agosto
é 27 de Fevereiro
e todos os dias do ano
é retalho de pano
é seda pura,
é forma, é fôrma, é formosura...
O amor é um rio perene
é água da chuva
é a mão, é a luva
é forte, um corte
na solidão
é o doce da uva
é espada que vem à mão
é bom vinho
é um astro
e voa feito passarinho
à procura de um ninho...
O CORAÇÃO DE CHOCOLATE
Meu coração de chocolate
derrete com um beijo teu
e bate compulsoriamente...
compassado... ao som de Bach
quando te beijo
e chego ao apogeu.
Minha órbita é o meu sonho
onde a lua contrasta
com a beleza de um sorriso
nu e cru
estampado no teu rosto
com gosto de chocolate
do meu tic-tac
tic-tac do meu coração.
Então acordo em Saturno
sou noturno
porque à noite durmo
e sonho
o sonho
dos sonhos
compassadamente...
compulsório...
No frio e na alma
abraço as tuas melenas
e me embrulho
no entulho
do que sobrou de mim.
Então descubro
que navegar é preciso
e navego, navego, navego...
e vivo.
Mas viver não é preciso
porque além deste espaço
infinito
e daqui...
outra vez sinto
que só sinto
o que sinto
quando estou perto de ti.
POEMA DE OURO
Todos os caminhos do sol
com todas as flores
e todas as cores
e o que é lindo
em todas as estações do ano
o que nos sorri
e tudo que está florindo...
Todos os povos e nações
com toda raça
e as espécies
e todas as crianças do mundo
e os pássaros da praça
com suas cantigas
aquelas de ninar
e todas as mãos amigas
acima da poesia
– que é uma expressão do coração –
haverão de testemunhar o dia
o grande dia
em que o ouro será o símbolo da vida
da paz
...e da união.
O PUNHAL
Queria estar bem junto a ti
para desejar-te felicidades
e beijar a tua boca
como quem se sacia em água.
Queria recitar mil versos
e voar contigo em uma cama
lamber o mel que escorre dos teus lábios
recitar outras mil declarações
como quem imita os sábios.
Eu te faria delirar de prazer
correria o campo da libido
cheiraria o perfume do teu sexo
faria tudo que é proibido
e depois de estarmos na lua
levaria mais flechadas do cupido.
Mas, se o tempo voltasse atrás
eu arrancaria o punhal
que cravastes no meu peito
roçaria a minha língua nos teus ouvidos
novamente voaríamos em teu leito
quem sabe seríamos felizes
quiçá apenas satisfeitos
eu queria ficar bem junto a ti
e cravar outro punhal em meu peito.
TRAJETÓRIA
O Farol de Itapuã ilumina
o caminho dos náufragos dissidentes.
Ah, o Farol de Itapuã ilumina
o caminho de dois corações que se sentem.
As mãos que afagam
Os olhos que apedrejam
Os navios distantes
Os homens que farejam
O Farol de Itapuã ilumina
Sob a luz de um luar crescente
Sob o toldo do céu incandescente.
O Farol ilumina...
Cada século vivido ao teu lado
Cada ano, cada dia
Cada vez fugidia
Cada ferida
Cada vida cicatrizada.
Cada noite
Cada dia pernoitado
Cada passo, cada pisada
Cada lado, cada lida
Cada choro, cada risada
Iluminam o Farol
Que ilumina os teus olhos
Que iluminam a minha vida...
Palavras ditas são palavras esquecidas.
Vernáculas letras mortas.
Se então sou poeta – sem eira nem beira
contorço confuso, escrevo
com todas as letras postas
ressuscitadas no tríduo legal.
Pela vida, pela vinda
pelas falas esquecidas
por diálogos e prólogos
ressuscita a Poesia
em versos de tristes monólogos.
Nasceu a morta palavra dita.
Nasceu, cresceu, já foi embora.
Nasceu, cresceu e partiu
esvaindo em mim
as delgadas veias poéticas.
Nasceu a viva palavra escrita
por entre escombros,
garranchos e armadilhas.
Chegou, entrou e ficou
chegou – alvíssaras! –
e se fez em mim uma filha...
CANTO DA FARTURA
Não te fartes do aroma das rosas
nem da brisa, nem do mar...
Antes, busque amar
À sombra da fogueira
Ou à luz do luar.
Não te curves ao tempo
nem à vida
e nem à idade
sem que tenhas prazer
no sorriso sincero e terno
de uma criança...
e na eternidade...
O céu, este lindo céu
não é azul.
Não são brancas as nuvens
que passam sobre ti
e nem são vermelhos os meus olhos
que por ti choram.
Tudo, na verdade, não tem cor
mas são coloridos os olhos teus
e muito mais a tua fé
e o teu amor...
Sonhar é ato sublime
viver é aproximar-se de Deus
querer é ter prazer
e errar é licença poética.
Destarte,
não te censures ao beijar-me,
pois, de todas as formas de expressão,
a mais forte é a que vem da alma
da mente
...e do coração.
O TEMPO E A POESIA
Do outro lado da linha
corre o tempo acima da velocidade permitida
enquanto os homens observam
sem saber o porquê
(o tempo é infrator das suas próprias leis).
O tempo é um velho astuto
na arte de rejuvenescer-se
é amigo inimigo tímido ousado
fica deitado
vê o mundo envelhecer.
O tempo é remédio
que não se compra na farmácia.
Mas, se tomado em gotas,
a ferida cicatriza, a dor passa.
O tempo anda de braços dados com a sorte
o tempo faz a vida
o tempo é a morte...
....................................
Do outro lado da linha
o tempo finge-se inerte
mas num piscar de olhos
ele já passou
e está ali de novo
transforma-se, fica estático
demora-se
não se importa com o povo.
O tempo é democrático
é vilão, é mocinho
é político e burocrático
é eternamente efêmero
é um mau vizinho.
O tempo inventa
desfaz, refaz
de novo desfaz.
O tempo é médico
é doutor
o tempo é filósofo
é professor.
O tempo reina
governa seu próprio tempo
transgride (é déspota)
transforma
define
deforma.
.................
Do outro lado da linha...
corre o tempo e faz seu próprio dia
faz nascer o sol
faz chover poesia...
A CHAMA
Não me importa mais
escrever versos nas linhas do destino
Se, de todas as canções,
uma me desatina
a outra desafina
a última, nada mais...
Não mais me interessam
palavras tortas e acrobáticas
que tentam sobreviver
às custas de um público desatento, mas solícito.
Outrora, vinha-me o verbo
agora, o silêncio.
Antes, eu era um invento
ora, sou estátua, professo.
Ontem eu era poeta
hoje, faço formas humanas
contos abstratos e chamas...
A chama que incandesce em mim
as letras e a arte (como se diz)
são de lápis de cera
papel crepom e giz.
Ah, se eu fosse uma rima
formaríamos um verso.
Se eu fosse um verso
seríamos uma canção.
Se eu fosse o inverso
invadiria o teu coração...
Sou esposo da arte
do templo e dos bons
dos sons dos sinos
do hino angelical
do coro
de milhões de vozes
dos olhos verdes
do brilho intenso
das frestas de luz
do rumo e da rima
do monte imenso
da porta aberta
do livro lido
da faca e da cruz...
Sou um soldado
da guerra fria
dos escombros dos sobrados
dos palácios
dos palhaços e dos circos
do teatro de fantoche
do deboche dos ricos
das ruas desertas
das frases abertas
do presídio dos amores
das flores e do Rosa
do pouco tempo
da falta de normas
das formas da fama
e da trama da prosa...
Eu sou poeta
eu rio do rei e do raio
da vida morta
da frase torta
da história
do ventre que não gera o poema
da pena de morte
da fila de espera
da capela fincada ao sol
das rimas arrimadas
do arredio
do arrebol...
Eu sou um ano
um veterano
de guerra e de paz
sou um anjo
o tempo e o vento
as bodas de papel
o sorriso da noiva
a lua-de-mel
um passaporte
uma viagem na vida
uma entrada uma saída
uma estrada interrompida
uma lágrima sentida
a alegria de viver
eu sou eu
e sou você...
ESTA MANHÃ, QUERIDA!
Esta manhã, querida
Novamente voltarei àquela praça
Solitariamente acompanhado
De um sentimento magoado
Pela dor que um dia brotou no meu peito
Ao ver cravado em mim
O fino punhal da felonia...
Esta manhã, querida
Deixarei que as gotículas frias de inverno
Queimem o meu corpo maltrapilho
Ao colher as poucas flores que me restam
No jardim mal cuidado
Daquele largo público
Que leva o nome de Presidente...
Sorrirei feliz
Ao receber boas notícias tuas
Ainda que eu venha a sofrer
Eu sorrirei
Como um desvairado que se ri à toa
Na digressão da minha mente insAna
Que teima em pensar em ti...
Esta manhã, querida
Cometerei as mais vis loucuras
Ao recitar poesias não rimadas
Colhidas no oculto da imaginação
Para que todos entendam
Que nenhuma loucura pode existir
No coração de um homem que ama
A mulher que o matou a facadas...
Ah, se o tempo voltasse atrás!
Eu me recolheria num convento
Agrilhoar-me-ia a sete chaves
Faria cessar o tempo
(logo ele, que pensei ser amigo)
Deixaria silenciar-me o vento
Amordaçar-me-ia perpetuamente
E beberia novamente do teu mel...
Ah, se o tempo voltasse atrás!
Eu não me preocuparia com o povo
Amadureceria a minha mentalidade vazia
Voaria no teu leito de novo
Cantaria uma canção meio desafinada
Amar-te-ia como a uma esposa
Viveria um conto de fadas...
Esta noite, querida,
Eu sonhei contigo novamente!
Mas não vou sonhar mais
– Não esta noite! –
Para que meus pensamentos se percam no infinito
Onde te encontrarei por um instante...
Esta noite, querida,
Sonhei que eras a mais linda mulher
Vestida de ilibado branco
Pura seda branca
E levavas contigo um bouquet de rosas
Doces rosas vermelhas
Harmonizando-se com o teu batom...
Esta noite, querida,
Disseram-me que és linda
Então me lembrei como tu és linda
E chorei...
Chorei porque és linda
Pura flor do campo
Linda menina a brotar para a vida...
Esta noite, querida,
Há pássaros cantando
Há flores no campo
Há vida no deserto
Esse deserto
que deixaste em mim
ao ficar tão perto e tão longe assim...
PERDÃO, QUERIDA!
Hoje eu me quebranto, querida
Pedindo-te perdão
Dos tempos roubados do teu convívio
Dos velhos hábitos de pai e filho
Do filho que não te gerei
Da geração que vivi no futuro
Das vidas transeuntes na cidade
Da velha casa onde morei
Da rua sem nome e endereço
Das cartas que eu não te escrevi
Das linhas escritas sem desvelo
Do apelo que não atendi
Das coisas feitas pela metade
Da outra metade que está em ti
Das brigas sem motivos
Dos motivos para fugir
Das fugas que não fizemos
Das viagens que fiz sozinho
Da solidão que te fiz senti
Da minha falta de cuidado
Do teu cuidado por mim...
Hoje eu te peço perdão, querida
Das muitas vezes que eu te feri
Da ferida mal cicatrizada
Da calça desbotada
estendida no varal
Do espeto de pau
em casa de ferreiro
Do fogo que queimava a vida
quando eu deveria ter sido bombeiro
Das migalhas oferecidas por mim
no momento do banquete
Dos sorvetes de flocos
derretidos no verão
E da primavera esquecida
nos teus sonhos menina...
Perdão querida,
Pelos livros que não te escrevi
Pela falta de dedicatória
Pela história mal contada
e as cantigas de dormir
Pela dedicação pouco dada
Pela mão que não estendi
Pelo perdão dado a mim
Pela falta de perdão a ti
Pelo espelho quebrado
Pelo jarro sem flores
Pelas flores não colhidas
Pela colheita tardia
Pelo conto de fada
vivido no passado
Pela ilusão despertada...
Perdão, querida
Pois sei que não fui um bom
amante
Pelos beijos esquecidos
Pela discórdia que plantei
Pelas árvores que não nasceram
Pelas plantas dizimadas
Pelas crianças mal amadas
Pelos velhos nos asilos
Pela falta de abrigo
Pela revolta que gerei.
Pela insurreição da natureza
Pela beleza estampada no teu rosto
Pelos quadros que não pintei
Pela lei que foi dura
Pela armadura que nos separa
Pela falta de fala
E pelos diálogos não concluídos.
Pelos dias perdidos
que não voltarão jamais
Pelo meu jeito incapaz
de oferecer-te a paz
Pela guerra declarada
Pela pátria mal amada
Pelos feridos na batalha
E pela falta de rima na poesia...
CORAÇÃO CADENTE
Onde estás agora
decadente e solitária?
Estrela cadente:
Dizem que os sinos
dobram por ti,
porque pereceste de morte natural
dentro de mim.
Meu pedido não atendido
foi o de trazer o meu amor.
Hoje sou o que sou:
Simples rei mago
sem rumo e arrependido.
Estrela cadente:
Bem que eu via
que tu eras diferente
pois tinhas a cauda de uma serpente.
Agora já não me guio mais em ti.
Mas vejo que além do horizonte
da história e da fantasia
o amor me entra e sai
em singela forma de poesia...
ESTAÇÃO MADRUGADA
(À memória de Carlos Drummond de Andrade)
Apagaram-se todas as luzes.
Só tenho uma capa, use-a
Pois o “coletivo” se demora.
Perdi o dia, o que faço?
Madruga a noite em mim
Perplexa, minha alma faz-se em aço
e o meu espírito toca flautim.
Passa o tempo pela estação
Passa o tempo indolentemente
E os meus olhos se perguntam: - Vão-se?
Já não se movem as minhas retinas cansadas
fatigadas de tanto amor e ódio
Ódio ao descaso e ao desamor...
Vejo no livro milhões de palavras
Unidas, são obra...
Sozinhas, apenas inúteis sementes caídas ao chão.
As palavras são como o povo
e o povo é como a erva:
Vindo o fogo, queima-se...
A paixão é fogo.
Já é tarde agora.
Porém, fora de mim
um homem alto e magro e de passos tímidos
caminha por uma rua iluminada
sem se importar com a hora...
O VENTO SOPRA
Se eu fosse uma poesia
não cantaria as mágoas da vida
e nem celebraria alegrias passageiras
colocadas no altar como oferta.
Minha vida é igual a sete vidas:
Pouco tenho, muito sou
mas sei que o tempo perdido
não está perdido
se ao menos feitas as lições de casa.
O vento sopra
– ah se eu fosse uma poesia! –
e leva consigo os sonhos de felicidade
agora feitos reais em nós.
O vento sopra
(o vento é tempo perdido)
sopra, sopra... vento
e leva consigo as folhas secas
que se traduzem como pretérito.
O vento sopra
(ele é o amigo que invento)
e leva também os sussurros mórbidos
que se escuta das alcovas.
O vento sopra
sopra o vento, sopra, vento...
e leva consigo os segredos de vida
desses que traduzo em pó.
O vento sopra...
Ah, a poesia que não nasceu
o vento trouxe e levou de volta
e a depositou no ventre de outro poeta.
O TEMPO E O POETA
O tempo não é amigo dos ávidos
e não se compadece
nem se compactua
com os sedentários
e com os dissidentes
que em vão se insinuam...
...o tempo é amigo do Poeta.
O Poeta não cria versos
apenas os incorpora.
Não escreve palavras belas ou feias
apenas semeia.
Não constrói ou destrói
apenas colabora.
O Poeta é um livro
que está vivo
é escassez, é festim
é presente, pretérito e futuro
é uma lápide no meio do jardim
é uma bala
é um muro
é um belo, é um duro...
O Poeta queima no fogo
mas renasce das cinzas.
HOJE EU CANTO
Hoje eu falo do passado
e só vejo a ti
eu canto
encanto e desabafo:
a felicidade é uma nau aportada em mim.
Hoje eu grito uma canção silenciosa
que fala de amor
- ninguém me ouve
mas não é debalde o meu clamor.
Hoje eu canto um grito mudo
p’ra falar das coisas que sinto
eu sento no muro
escrevo, memorizo
e declamo um poema solene e puro.
Hoje eu recito um gemido de alegria
eu chego ao clímax
e sussurro mais uma poesia.
Eu sou feliz
e brilho mais forte que o ápice do dia.
A FERIDA
Tenho uma espada para te falar
e apenas mil palavras para te ferir.
Ou tenho mil goles para destilar
e somente um verso para te engolir.
Jamais desejei recitar
versos tão singelos, com a voz tão rouca
eu só queria estar contigo
sem perder o juízo
e beijar a tua boca.
Ontem, quando eu te chamava de querida,
tu me roubaste a espada
e, com ela,
esvaziaste a minha vida:
Roubaste a espada
deixaste a ferida!
o meu coração
ainda sangra – como máquina
ainda mata – essa convulsão.
E o coração ferido
nesta lida, com esta dor
pulsa sangue, pulsa verso
jorra vida, jorra amor.
UM CANTO ACUADO
Cantarei para ti, querida,
o canto mudo das estrelas.
Murmurarei nos teus ouvidos
palavras inaudíveis ao ser humano.
Recitarei em praça pública
poemas ainda não escritos.
E te farei como o egresso
que se livrou das grades que o sufocavam...
Falarei para ti, querida,
frases que nada dizem
– somente tu compreenderás –
e viajarei no horizonte distante
com o meu olhar perdido
contemplando vagamente
a beleza do teu rosto
como a mãe que contempla o seu filho...
– coisas de cinema –
e escreverei um romance no teu corpo
onde as palavras serão mera expressão do prazer.
Certamente viverei esse romance abstrato
meio abstraído da realidade urbana
como um andarilho trafegando sem rumo pelo mundo...
Ditarei ao vento a sabedoria milenar
dos velhos costumes populares.
Aprenderei a contemplar a saga humana
retirando dela as lições perdidas
que a vida deixou de nos ensinar...
Enfim, semearei a beleza da tua arte
tributando a ti uma especial homenagem.
Também pintarei um belo quadro
e gravarei na minha memória
a figura excelsa do teu lindo rosto,
que é a máxima expressão de toda obra da criação.
COLHENDO FLORES
Querida:
Hoje não te darei nenhum presente
Nenhuma flor ornada em bouquet
Nada que possa te empolgar.
Pois quero colher flores no campo
Correr contra a brisa suave
Sentir o aroma da água fresca
Nadar na calmaria do lago
Viver um pouco de aventura.
Não quero de ti nada que relembre o passado
Apenas as memórias boas
Que foram escritas na parede da casa
Como que em um livro aberto
Percorrendo o crer e o saber
Que são apenas estágios humanos
Para alcançar a plenitude do amor.
Nada, absolutamente nada vai nos entristecer
Desviar a nossa atenção mútua
Quando cantarmos na praça vazia.
Apenas os pássaros falando-nos segredos
E árvores frondosas sussurrando aos nossos ouvidos
Palavras inaudíveis ao ser comum
Como uma melodia orquestrada ao fundo...
Hoje, querida
Falaremos de coisas belas
Como o pôr-do-sol no alto de Ondina.
Então, seremos ainda mais felizes
Quando cantar o galo
Anunciando a aurora emergente
Trazendo notícias das terras longínquas
De onde despontará uma nova poesia...
Hoje, querida
Serei um pássaro na janela
Cantando-te uma linda canção
Para despertar o teu sono de anjo
E depois voar contigo no espaço
Sem rumo e sem direção
– Ao infinito e além...!
CANTIGA SERTANEJA PARA UMA JOVEM ESTUDANTE DA VILA IMPERIAL DA VITÓRIA
Caminhei pelas campinas
pelo vales, pelas baixadas
em busca de uma flor
que me fosse a namorada.
Pelos brejos e ilhas
pelas trilhas da boiada
nos cumes das montanhas
e nas colinas ensolaradas.
Nas fazendas de cafés
nas choupanas e nas senzalas
pelas veredas bem distantes
em busca da minha amada.
Viajei em lotação
a pé e a cavalo
procurando meu amor
nas alamedas e nos sobrados.
Só não procurei aqui
bem pertinho, do meu lado
onde mora uma donzela
que me deixou apaixonado.
Agora eu aprendi
a lição que me ensinaram:
a felicidade é um tesouro
que ganhamos como legado.
Pra finalizar vou dizer
meu segredo bem guardado
o nome da minha princesa
é dos santos e é do Carmo.
Ela é linda como a trova
tão perfeita como a viola
e exala um perfume
bem mais doce que a rosa.
Eu amo a beleza da tua arte
Lastro de penhor da minha frágil poética
Usurpada pelo brilhantismo da tua inefável expressão...
Zelo pelo teu aprazível olhar
Aspirando colhê-lo como a uma rosa
Impoluta, tal qual a manhã ensolarada.
Curto a lucidez do teu sorriso
Ainda que ele se encerre para mim...
Regozijo-me ante a tua superlativa presença
Mesmo que a tua evidente indiferença
Ofereça-me em troca a mera polidez de uma dama.
Suspiro diante da tua titânica formosura
Associada à eloqüência do teu entoado falar
Naturalmente sedutor, como o sol
Transluzindo em mim todo o brilho da alva
Onde a tua luz descreve o nascer de uma nova poesia
Sentenciada de vida pelos distintos pretores da Corte.
TEMPESTADE EM EGOCITY
Eu só queria encontrá-la
Eu só queria entendê-la
Mas uma pedra dentro de mim
Trouxe-me o medo de perdê-la.
Junto à pedra nasceu uma flor
De tão linda tentaram arrancá-la
Ai veio o vento e a machucou
Depois, veio a chuva e a despetalou
Então veio a tempestade...
A pedra é o ciúme
O vento a insegurança (quem diria!)
A chuva, vejam só, o preconceito
E a tempestade, a hipocrisia...
Deixaram a flor indefesa
Ela que tão sensível é
Essa flor, minha gente,
Acreditem,
É tão bela quanto a mais bela mulher!
O protótipo de jardineiro
que em mim criaram
Fez-me maltratar a flor
Sem tratos apurados errei
Não podia aceitar o amor.
Mas um dia encontrei a menina
Nesse dia eu a pude entender.
Ela me ensinou como um mestre
Como é simples uma pedra remover.
A ÚLTIMA POESIA
Esta é a minha última poesia
Não voltarei mais a te escrever
Nem entabularei frases românticas
Ditadas ao léu por um coração vazio...
Este é o nosso último nascer do sol
Serei agora como uma densa nuvem
Uma sombra que te seguirá em pensamentos
Até que a nova alva repila-te completamente de mim...
Esta é a última canção
Conforme te revelaram o tempo e o espaço.
Eu não cantarei para ti novamente
Até que o destino retome a sua trajetória...
Um dia você olhará e verá
O tempo perdido na juventude
Então sentirá a tristeza que me mata
E saberá quão precioso foi o nosso afeto.
Um dia, querida...
Ah! Já passou – como um vendaval
Deixando em mim um rastro de ruínas no chão
E um punhado de sobras daquilo que um dia chamei de
4 comentários:
Caro Dr. Marcos, desconhecia esse seu talento! Apesar de saber q vc é uma pessoa de talentos. Gostei muito de suas poesias, particularmente do "Infanticídio Poético"...inspiração grande homem e um forte abraço.
Eae Marcos blz?como vão as coisas por aí?adorei seu blog e o scrap tb...
Se cuida!!!!
Bjs
Amei Marcos! Você realmente é um poeta.E um poeta abençoado por Deus,com um dom maravilhoso.
Que o nosso Senhor,conserve o seu coração íntegro na Sua presença.
Prezado Marcos ,
Sou um jovem bem diferente dos que tem por aí pois gosto de Ler e Escrever. Minha vida é dificil pois no meio social que vivo é constituida de pessoas com mais idade.
Uma dessas pessoas é Jorge Tannuri que foi Presidente de uma Sociedade de Escritores de Sonetos. Quando vi seus sonetos lembrei dele.
Quero dizer parabens por seu BLOG , saiba que ganhou um admirador cristão batista de Teresópolis que ama Poesia e Sonetos.
Marcos Vinicios Habib ( Khabbaz )
Cristão Fudamentalista / Calvinista
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