SONHO DE UMA NOITE DE INVERNO
(Homenagem a Mário Quintana)
Uma procissão de espantalhos
daquelas que falou Quintana
só que nesta todos sorriam
e as suas expressões eram mágicas.
Seguia por todos os caminhos
por todas as ruas, sem atalho
aos homens saudava com música
com flores, damas e pirralhos...
Pelos bairros e guetos ia
levando palavras de amor
aos pobres, aos negros e aos párias.
Aquela procissão, senhores,
era um exército de infantes
e meninos da Candelária.
SONETO DA EXISTÊNCIA TOTAL
Escrevo com letras trêmulas
A caneta na mão insegura
E o pensamento vagando arredio
Em busca de uma nova poesia.
Escrevo... Logo, existo!
Poeticamente falando, existo
Tão avidamente como um soneto
Ardendo no coração como a chama da saudade...
Escrevo... Logo, sou poeta
Um trapezista das letras e da arte
Exibindo-me para ti a troco de poucas moedas.
Escrevo... Logo, te amo
Eu falo-te através das flores
e canto toadas ao som do piano...
SONETO DO VIVER TOTAL
A vida que hoje vivo – como Paulo
Já não vivo mais por mim mesmo
Vivo porque corre sangue nas minhas veias poéticas
E o coração pulsa ao ritmo de um soneto...
Já não vivo mais na minha carne
Vivo de viver uma fantasia
Como o sol que nasce diariamente
E morre, lançando sobre nós raios de ilibada poesia...
A vida que agora vivo
Não é em vão como estas palavras
Nem tão forte como o teu olhar...
A vida que ora vivo
Tão suavemente como a morte
Vivo-a por ti, vivo-a por sorte...
SONETO DA PAZ
Vou escrever-te uma poesia
vou cantar-te em verso e prosa
vou falar da tua beleza
como se fala da rosa.
Vou medir a tua formosura
com trovas de rimas métricas
e em quilômetros de versos
vou recitar a minha prédica.
‘Inda vou gritar ao mundo
falar gíria camoniana
dizer a todo romântico
que nos maus tempos de guerra
certamente a tua poesia
será a única saída bélica...
SONETO DAS FORÇAS POÉTICAS JURIDICAMENTE ANTAGÔNICAS
(ou do infanticídio poético)
Há em mim uma ação centrífuga
e uma força centrípeta
que agem como um paralelismo jurídico
tal qual a necessidade de norma para criar e extinguir.
Há em mim um bem e o mal
um militando contra o outro
como a ordem jurídica e a falta de lei
que me fazem um ser paradoxal.
Há em mim um magistrado jocoso
e um delinqüente nato
como positivado por Lombroso.
Há em mim um bardo e um desvairado
que gera heroicamente a poesia
e a mata em estado puerperal...
A PENUMBRA
Jaz o dia numa caixa de mistério
Suave, vejo a penumbra abrir suas asas:
O som, a luz, o dom... é tudo etéreo.
Só um vaga-lume a vencer as trevas.
Adormece a noite como uma seda
Nada absolutamente a me enganar
Só uma vaga luz enfeita os meus
tristonhos olhos... Quão tenra alegria!
Novamente, falta-me a rima amiga...
Desta vez, fogem-se também os versos...
Sou forte, mas não quero morrer ainda.
Senti o sol clarear teu áureo sorriso
Agora, sou tal Mohamed Ali
E anjos velam meus sonhos de menino...
BRILHO PLEONÁSTICO
Brilha o sol limpidamente
como um poema de Cecília
brilha manhã intensifica
amor calor vivifica.
Como nuvem de plumagem
brilha o cristal nessa imagem
brilha o brilho o sol rebrilha
- sonhar é voar de carruagem!
Passarinho na janela
a aurora cantada canta
o raio a luz a vida encanta.
Sol que redundante brilha
brinca no azul azulado
brilha com brilho pleonástico.
SONETO DE SE AMAR
Gostaria de escrever-te um soneto
Mas o que é a poesia em versos compostos?
Cada quarteto e cada terceto
Não passam de um amor obsoleto.
Porém, se é amor, há de ser amado
Ainda que seja me-tri-fi-ca-do
Ou até mesmo se a poesia concreta
Tiver seus versos petrificados.
Mas há de ser um eterno amado
Mesmo que não for metrificado
Pois nem todo obsoleto é passado.
Mas será ele eternamente amado
Posto que no Poeta apaixonado
Não haverá coração empedrado.
O PEQUENO MUNDO
Viajo por um pequeno mundo
Onde há encantos e aventuras
E o tempo é o mais fiel companheiro
- Janela aberta da cultura.
Tenho por leal amigo um “hobby”
Linhagem da pura realeza
É das artes a mais completa
Das ciências a de maior beleza.
Decerto no amigo ainda encontro
Outros das mais altas valias:
- homens, mulheres, reis e rainhas...
Acervo de sabedoria
O mais sublime passatempo,
de todos, é a filatelia.
AS PORTAS
Há uma porta onde nunca passei
Dentro da velha casa assombrada
E se dará acesso às veias abertas
da América Latina... Não sei!
Há outra porta por onde entrei
De onde sair não mais conseguirei
Pois lá vivo com portento ou então
me caso com a filha do rei!
Portas se abrem (portas que se fecham)
Portas dão acesso a um esconderijo
Outras tantas a lugar nenhum.
Há uma porta envolta em seus umbrais
Em que se abre em módica dosagem
O caminho que nos leva à paz.
AS JANELAS
Das janelas se vê o horizonte
Vê-se também as belas morenas
Que vêm e vão como as ondas do mar
E o vento que agita as suas melenas.
Das janelas se vê a vida e a morte
O leiteiro puxando a carroça
Um homem vestido à moda antiga
E a chuva que nos pega à socapa.
As janelas anunciam a aurora
Anunciam também o ocaso e a noite
E as vidas que se cruzam opacas...
São janelas que se abrem ao mundo
E deixam penetrar o fulgor-
do-sol-na-casa-meio-moribunda.
FÃ-CLUBE I (ou Vaga Poesia)
Brincar com as palavras
Tecer as rendas da poesia
Formar as frases:
Luz do sol para o dia...
Brincar com as letras
Formar a linha do horizonte
Montar a rima:
Ouro em pó na mina...
Brincar com teu sorriso
Tecer a teia das palavras:
Rendas de ouro e de prata...
Brincar no teu ninho
Passeio nos teus lábios:
A flor e o passarinho...
OS OLHOS DE DENNY
Os olhos de Denny são um tanto
E um pouco mais demais eclíptico
Mas ainda assim eu sei, no entanto,
ternura realçam, verdes encantos.
O seu olhar diz sabe-se o quê
Tal mistério vou desvendar
No meigo sorriso que encena
O lindo rosto da pequena.
Como um exímio beija-flor
O meu pensamento tão lírico
Vagueia no seu épico compor.
Como uma borboleta tímida
O meu olhar de menino vadio
Pousa vago nesse vazio...
SONETO DO DESEJO
Eu quis escrever-te um verso
Nas linhas do horizonte
Porém, a dor do reverso
Impediu-me de ir adiante.
Eu quis pintar-te em mil cores
Pitorescas grutas mágicas
Sofri as dores das flores
Que é como sofrer nada.
Eu quis querer-te querida
Nos garços vergéis floridos...
Ter-te, como quem tem vida.
Eu quis saber te amar...
Mas o homem que eu sou
Esqueceu que tu és flor.
SÃ-POESIA I
Dorme a inocência
o infante soldado
a infantaria tenra
o pequeno amado...
Dorme o bravo cândido
um inócuo gigante
o menino forte
a malícia puericial...
Dorme o sonho:
a senha anseia o som
um novo sentido...
Dorme um sonho
a nobreza poente
o puro poeta somente...
GLOBALIZAÇÃO
Haveremos de nos lembrar da mata atlântica
Destruída nas nascentes dos rios
Das casas de taipa onde nos amamos
Nos tempos de Perdidos no Espaço e panteras cor-de-rosa.
Haveremos de cantar um hino à bandeira
E as Preparações para a Morte, de Bandeira
Recordaremos os Segredos de Taquarapoca
Enquanto um Peter Parker impõe-nos a soberania americana.
Haveremos de sorrir cinicamente
Dos heróis do 31 de março
Enquanto alienígenas nos oprimem nos estádios de futebol.
Haveremos de chorar nas Elegias
A morte de milhões de famélicos
Enquanto o mundo aplaude o crescimento da nossa economia.
URBANIZAÇÃO
Há poesia nos pára-lamas dos caminhões
nas placas de anúncios, nos outdoors
nas fachadas das casas
e nas ruas com paralelepípedos.
Há poesia nas esquinas, nos cruzamentos
nas transas das pessoas nas calçadas
nos sinais vermelhos que contêm o trânsito
e no fluxo de pedestres nas alamedas.
Há uma epopéia urbana dentro de mim
nas árvores que contrastam com o concreto
nos decretos dos alcaides e no deserto dos sobrados...
Há uma urbanização na zona rural
na idiossincrasia urbana dos peregrinos
e nas tabas dos índios no meio da mata.
ELUCIDAÇÃO
Meu olhar decididamente perdido
nada tem de desvario, nada tem
a não ser um leve delírio doméstico
de capturar em ti o meu desatino poético.
Nada tem de torto o meu olhar, nada tem
exceto um parco estrabismo poético
indecisamente perdido, como a minha falação
obstinado em captar em ti essa ardente elucubração.
Nada tem de desvario o meu olhar louco
nada tem, de tão torto, nada tem
nada tem de tão pouco, nada tem...
Nada tem de tão forte meu olhar arrependido
de tão frágil, bem assim, nada tem, nada tem
nada, além da vontade de vagar confundido, nada tem...
SONETO DE ELUZAI
Os teus passos de tango argentino
o teu tão doce olhar – simples e feminino
que me arrebatam os sentimentos
tão pueris, de tão menino.
Os teus lábios de róseas sedas
e estes olhos, os olhos teus – doces como pêra
onde o lastro reluz o resplendor
de tantas sobras, de poucas perdas.
A tua pele lisa, de tão lisa
nenhuma outra tem, nenhuma delas:
nem Elis, nem Elisângela e nem Elisa.
Com tuas mãos tão pequenas, Eluzai
somente a mim afagas, minha fada
e dentre todas tu sobressais, querida.
ELEIÇÃO
Se eu for o teu eleito, Eluzai
certamente não haverão mais flores
e nem mais pássaros na praça
quanto o ultimado dia de ontem...
Se eu for o teu eleito, menina
quiçá as pessoas sequer perceberão
a força dessa tua decisão
refletida como um espelho no meu sorriso...
Ah! Mas se eu for o teu eleito
sem dúvidas cantarei nos meus hinos
a história desse amor quase desapercebido.
Assim, se for eu o teu eleito, querida
nada, absolutamente nada será diferente
a não ser o dia que nascerá ao avesso...
AMOR BANDOLEIRO
O amor com que simulas me amar
o disfarce com que te amo sem te amar
o elo, a eloqüência, a elegia
e um jarro de flores que nada nos diz.
O amor com que me fundes a tua burla
a fundação com que te iludo o meu amar
o corpo, a cópula, o copo-de-leite
e um opúsculo que nunca conta a nossa história.
A vida que te escrevo à dura pena
os olhos com que vivo o teu olhar
e esse vinho com que tu roubas a cena:
do amor que é pra ser fingido
da poesia que é pra ser vivida
e da vida que nunca vale a pena...
OS OLHOS DE ELIENAI
Os teus olhos, Elienai, cerúleos como o mar
traduzem-me um aguçado impressionismo
– à semelhança de Oscar-Claude Monet –
dentro de uma realidade meramente devaneadora.
Ah, fortes olhos teus, tal à rosa
tão inebriantes quanto o vinho
o vinho que ainda resta no copo
quando já estou farto de tanto bebê-lo.
Os teus olhos, doces como a manga
mais se parecem com o lápis-lazúli
na clareza com que o delineia a luz do dia.
E os sorumbáticos olhos meus, como o nada
se parecem apenas com a chuva fria
quando espreitam os olhos teus numa fotografia...
CANTO DE ANIVERSÁRIO
Os anos vão passando, os tempos,
as eras, os séculos, as gerações...
Chegam as rugas, cabelos caem,
ficam as lembranças, os sonhos, os ideais...
Envelhecemos com o tempo.
Ele, que não se avilta nem se exalta,
vai passando, como o trem na estação:
passa, passa... e não volta jamais.
Voltam as modas, os usos, as rodas de amigos,
as cantigas de roda... Porém vão-se as eras,
forma-se a história, ficam as memórias...
Passa o tempo, vemo-nos envelhecer,
o trem volta, costumes voltam... O tempo não!
Mas sempre fica o anseio de dizer: parabéns a você!
OSSOS SECOS
Não restará de mim, senão ossos secos.
Os meus olhos, as minhas mãos,
a minha boca... Nada, senão ossos secos
e o pó que o vento espalhará pelas campinas.
Das minhas poesias ninguém se lembrará
nem de quem eu fui, não haverá memórias
e não sobrará de mim senão a ossada seca
amontoada entre ossaturas desconhecidas.
O meu intelecto e a minha sandice
os meus sonhos de criança e as meninices
nada, simplesmente nada, além de ossos secos.
O meu amor por ti, senhora, esse restará
cantado em versos por outros pássaros-poetas,
o meu amor por ti (e ossos secos)... Sim, ficará!
A POESIA
Poesia que não nasce do labor, como o parto
E nem surge da força, como o pão
Poesia que apenas vem, como o vento
Poesia que apenas se vai com o verão.
Poesia que se forma de estrofes e versos
Poesia que se deforma em guerra e amor
Poesia que não se colhe da lavra e da ceifa
Poesia que se escreve com sangue e com dor.
Poesia que se leva à fartura para a mesa
Poesia que se serve como refeição
Poesia que se reza, se come e se rejeita:
Poesia que se abomina e se corteja
Poesia que se cala e de quem se comenta
Poesia que apenas se vive, se apregoa e se deseja...
2 comentários:
Sou um jovem bem diferente dos que tem por aí pois gosto de Ler e Escrever. Minha vida é dificil pois no meio social que vivo é constituida de pessoas com mais idade.
Uma dessas pessoas é Jorge Tannuri que foi Presidente de uma Sociedade de Escritores de Sonetos. Quando vi seus sonetos lembrei dele.
Quero dizer parabens por seu BLOG , saiba que ganhou um admirador cristão batista de Teresópolis que ama Poesia e Sonetos.
Marcos Vinicios Habib ( Khabbaz )
Cristão Fudamentalista / Calvinista
Ola amado Marcos,
Alem de grande irmao em Cristo, tu és um excelente escritor, alguem que escreve nao só com a caneta, mas com o coração!
Tenho certeza que se o VT fosse escrito hoje, voce seria o candidato ideal para escrever Cantares.
abs,
do irmao e agora fã
Ricardo
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